Sentes-te para trás com o que vês nas redes e com pressa de acompanhar? É aí que as burlas te apanham
Um estudo diz que quase um quarto dos portugueses se sente mal com o que vê nas redes sociais, e que os mais frágeis financeiramente se endividam para acompanhar influenciadores. Esta é uma opinião da Equipa É Burla? sobre como essa comparação te torna um alvo mais fácil para os esquemas de dinheiro fácil.
Por Equipa É Burla?··6 min de leitura
Uma nota antes de começar. Isto não é uma ficha de burla, é uma opinião da Equipa É Burla? sobre um tema que nos preocupa. Sentires-te em baixo com as redes sociais não é golpe nenhum, e ninguém te vai julgar por isso. Mas há um fio que liga essa sensação às burlas que passamos os dias a desmontar, e vale a pena falar dele.
Abres o telemóvel para dois minutos e sais de lá meia hora depois a sentir que a tua vida está para trás. Toda a gente parece ter mais, viajar mais, ganhar mais, e sem esforço nenhum. Não estás sozinho nisso. Um estudo da Intrum divulgado em 2026 diz que quase um quarto dos portugueses (24%) se sente mal consigo próprio ou com o seu estilo de vida por causa do que vê nas redes sociais. Entre a geração mais nova, quase metade relata que essa exposição lhe piorou a saúde mental.
Nós, no É Burla?, não somos psicólogos e este não é um texto sobre bem-estar. Mas há uma parte desta história que é mesmo o nosso território, e quase ninguém a liga à outra: essa comparação não te deixa só triste. Deixa-te vulnerável. E há quem viva disso.
O que os números mostram
O mesmo estudo mostra que a coisa não fica no sentimento, passa à carteira:
- 34% dos portugueses admitem ter feito compras por impulso depois de verem publicidade nas redes.
- 14% dizem que a pressão dos influenciadores os levou a contrair dívidas, a assumir créditos ou despesas acima do que aguentam, para manter um certo estilo de vida.
- Entre a geração Z, cerca de 19% já se endividaram para tentar replicar vidas que viram nas redes.
- E são os financeiramente mais frágeis os mais atingidos: entre eles, 38% dizem que os padrões dos influenciadores lhes prejudicaram a saúde mental, contra 19% entre os mais resilientes.
Repara na última linha, porque é a mais importante. Quem já está em dificuldades é quem mais sofre a comparação, e quem mais se endivida a tentar acompanhar. Guarda esta ideia, porque é exatamente esse o perfil que os esquemas procuram.
O elo que ninguém liga: a comparação e a burla
Pensa em como te sentes depois de meia hora a ver vidas perfeitas. Para trás, com pressa de recuperar, e a achar que devia haver uma forma mais rápida de lá chegar. É precisamente nesse estado que és mais fácil de enganar. Não é fraqueza tua, é como o esquema é desenhado.
É por isso que, logo a seguir a esses vídeos, aparecem sempre os mesmos:
- O falso guru de investimentos que “largou o emprego” e te vende o curso, o grupo pago ou a plataforma onde vais perder dinheiro. Muitas vezes com figuras públicas cujo nome e cara são usados sem autorização.
- O esquema em pirâmide disfarçado de “oportunidade” e de “comunidade”, em que só ganha quem está no topo, e que é ilegal em Portugal.
- O “trabalho a partir de casa” que rende centenas por dia e afinal te suga o dinheiro, e as apostas e o jogo apresentados como forma de recuperar depressa, que também eles vivem desta mesma pressão.
Todos vendem a mesma coisa: o atalho. E o atalho é a isca. Não é por acaso que o próprio Banco de Portugal já anunciou que está a usar uma ferramenta de inteligência artificial para vigiar os influenciadores que promovem produtos financeiros de forma pouco transparente. Quando o regulador põe um radar a andar atrás disto, é porque o problema é real e está a crescer.
A nossa opinião, dita com todas as letras
No nosso entender, a conversa sobre redes sociais anda a ser feita só metade. Fala-se muito da parte da saúde mental, e ainda bem. Mas fala-se pouco de que essa fragilidade é também uma porta de entrada para se ser roubado. A pessoa que se sente em baixo e com pressa não é só uma pessoa triste, é um alvo, e do outro lado há quem saiba disso e o explore com frieza.
Não defendemos largar as redes nem achamos que quem se compara é fraco. Comparar-se é humano, e as redes são feitas de propósito para isso. O que defendemos é que reconheças o momento: quando te sentes para trás e aparece alguém a prometer-te o caminho rápido para a frente, essas duas coisas juntas não são coincidência. São o esquema a funcionar.
Como te protegeres (de ti e deles)
- Lembra-te do óbvio, que é o mais fácil de esquecer: nas redes vês o melhor dos outros e comparas com o pior de ti. Ninguém publica as dívidas, o crédito nem os dias maus. O que vês não é a vida real, é o anúncio dela.
- Desconfia de quem te promete ganhar dinheiro fácil. Se fosse assim tão simples e certo, não andavam a vendê-lo a estranhos na internet. O dinheiro deles vem de te venderem o sonho, não de o cumprirem.
- Antes de qualquer investimento, faz duas perguntas: quem me está a recomendar isto ganha alguma coisa se eu entrar? E esta pessoa ou empresa está autorizada a aconselhar investimentos (confirma na CMVM ou no Banco de Portugal)? Se não sabes responder, não metas lá dinheiro.
- Cuidado com o “compra agora, paga depois”. Facilita gastar o que ainda não tens e acumula prestações. Não é dinheiro teu, é dívida com outro nome.
- Segue menos, ou segue outra coisa. Não tens de largar tudo. Mas deixar de seguir as contas que te deixam sempre em baixo é um dos gestos mais saudáveis, e mais rentáveis, que podes fazer.
- Fala disto com os mais novos. A geração Z é a mais exposta e a que mais se endivida a acompanhar. Quem percebe o jogo defende-se, e protege os outros.
Nota da Equipa É Burla? Este é um texto de opinião sobre um tema de interesse público, baseado em dados de um estudo citado e em factos públicos. Não acusa nenhuma pessoa nem empresa concreta. Os juízos de valor são nossos e estão assinalados como tais.
Fontes: Estudo da Intrum (Intrum, https://www.intrum.pt) sobre redes sociais, consumo e bem-estar financeiro dos portugueses, divulgado em junho de 2026, com os dados citados: 24% sentem-se mal com o que veem nas redes, 34% fizeram compras por impulso após publicidade nestes canais, 14% contraíram dívidas por pressão de influenciadores, cerca de 19% da geração Z endividou-se para acompanhar estilos de vida das redes, e maior vulnerabilidade entre os consumidores financeiramente frágeis. Banco de Portugal, uso de uma ferramenta de inteligência artificial para monitorizar influenciadores digitais que promovem produtos financeiros de forma pouco transparente (2025). CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) e Banco de Portugal, entidades onde se confirma quem está autorizado a intermediar ou aconselhar investimentos em Portugal.