"Olá pai, perdi o telemóvel, este é o meu número novo": porque é que quase nunca é o teu filho, e o que fazer antes de pagar
Verificado por Equipa É Burla?Atualizado a 21 de julho de 2026
Se um número novo diz que é teu filho e pede dinheiro, liga para o número antigo antes de pagar. Confirma pela voz, nunca só pela conversa escrita.
O que ele diz vs. o que ele quer
Ele diz“Olá mãe, sou eu, parti o telemóvel. Este é o meu número novo, grava aí e apaga o antigo.”
Quer mesmoQue aceites, sem confirmar, que aquele número desconhecido é mesmo o teu filho ou filha. Assim que gravas o contacto, deixas de desconfiar de tudo o que vier a seguir.
Ele diz“Preciso da tua ajuda com uma coisa urgente, mas não consigo aceder à app do banco no telemóvel novo.”
Quer mesmoPreparar o pedido de dinheiro com uma desculpa que parece técnica. Nenhum banco te tranca a app só por teres mudado de telemóvel, isto é inventado.
Ele diz“Podes pagar-me esta referência multibanco (ou mandar por MB Way)? Depois acerto contigo.”
Quer mesmoLevar-te a fazer o pagamento para uma referência ou número que é deles. Assim que pagas, o dinheiro desaparece e não há como acertar contas nenhumas.
Ele diz“Não ligues agora que estou numa reunião, manda só mensagem. É rápido, por favor.”
Quer mesmoImpedir-te de fazer a única coisa que desmonta a burla: ouvir a voz. Se não podes ligar, não confirmas, e é isso que eles querem.
Chega-te uma mensagem de um número que não conheces. “Olá pai” ou “Olá mãe”, diz. É o teu filho ou a tua filha, partiu o telemóvel ou perdeu-o, e este é o número novo. Pede para gravares e apagares o antigo. Parece uma chatice do dia a dia, daquelas que acontecem a toda a gente, e tu, com o coração de pai ou de mãe, gravas o contacto e respondes.
É aí que a armadilha fecha. Pouco depois chega o verdadeiro pedido: uma conta urgente para pagar, uma referência multibanco, um MB Way, uma transferência. Sempre com a desculpa de que não consegue aceder à app do banco no telemóvel novo. O Banco de Portugal alerta para esta burla, conhecida por “Olá pai, olá mãe”, e ela rouba milhões por ano aos portugueses. Se recebeste isto e vieste confirmar antes de pagar, fizeste exatamente o que devias.
O sinal que entrega tudo
Há um pormenor que desmonta esta burla quase sempre: a mensagem chega de um número que não tens gravado, e a primeira coisa que te pedem é para acreditares que ele é teu filho. Um filho a sério, com número novo, é fácil de confirmar: ligas para o número antigo, ou pedes um vídeo, ou fazes uma pergunta que só ele saberia responder. O burlão foge de tudo isso. Diz que não pode atender, que está numa reunião, que o telemóvel está sem som, que mandes só mensagem. Toda a insistência para ficar na conversa escrita é o sinal. É lá, no texto, que ele consegue fingir. Na voz, não.
Como funciona
O objetivo não é ficar com o teu contacto. É pôr-te a pagar, à pressa, uma conta que é deles, antes de teres tempo para pensar.
- A mensagem-isco. Recebes um “Olá pai” ou “Olá mãe” de um número desconhecido, a dizer que o teu filho partiu ou perdeu o telemóvel e tem número novo. Pedem para gravares e apagares o antigo.
- A conquista da confiança. Trocam algumas mensagens simpáticas, para pareceres a falar mesmo com o teu filho. Muitas vezes já sabem o nome dele e até usam foto, recolhida de redes sociais ou de grupos de WhatsApp.
- A desculpa técnica. Aparece o problema: precisam de pagar algo urgente, mas “não conseguem aceder à app do banco no telemóvel novo”. Isto é inventado. Nenhum banco tranca a app só por mudares de telemóvel.
- O pedido de dinheiro. Pedem-te para pagares uma referência multibanco, mandar por MB Way ou fazer uma transferência para um IBAN. Prometem “acertar depois”. Assim que pagas, o dinheiro é deles e não há acerto nenhum.
Porque é que se percebe que é falso
Grava estes sinais, porque cada um deles chega para travar a burla:
- Um filho com número novo confirma-se num minuto. Ligas para o número antigo, ou pedes uma chamada de vídeo. Quem foge disto e só quer mensagens escritas está a esconder que não é quem diz.
- A desculpa do banco não existe. Mudar de telemóvel não impede ninguém de entrar na app do banco. Se “não consegue aceder”, é para te pôr a ti a pagar.
- Pedem para pagar para uma referência ou número que não conheces. O teu filho não te manda pagar contas de estranhos para IBANs que nunca viste.
- Há sempre pressa. “É já”, “é urgente”, “não posso falar agora”. A urgência serve para não te dar tempo de ligar e confirmar. É a mesma alavanca de outras burlas, como a de devolver uma transferência MB Way recebida “por engano”.
Sinais de alarme
Se reconheces isto, acende-se a luz vermelha:
- Uma mensagem de número desconhecido a dizer que é o teu filho, filha, neto ou irmão com número novo.
- O pedido para gravar o novo número e apagar o antigo, logo à partida.
- Uma desculpa para não atender chamadas nem fazer vídeo, só mensagens escritas.
- A história de que não consegue aceder à app do banco no telemóvel novo.
- Um pedido de pagamento urgente: referência multibanco, MB Way ou transferência.
Guarda esta regra: um filho a sério não se importa que confirmes. Um burlão sim.
O que fazer se recebeste esta mensagem agora
Se a mensagem acabou de chegar e ainda não pagaste nada, faz assim.
- Não pagues nada. Nem referência, nem MB Way, nem transferência. É este passo que evita tudo o resto.
- Liga para o número antigo do teu filho ou filha, o que já tens gravado, e confirma pela voz. Se estiver mesmo sem telemóvel, contacta alguém próximo que o possa confirmar.
- Faz uma pergunta que só a pessoa saberia responder. Um pormenor da família, uma memória. O burlão não sabe responder.
- Não apagues o número antigo e não gravures o novo como se fosse teu filho.
- Guarda os prints da conversa e do número que te contactou. Vão fazer falta para a denúncia.
O que fazer se já pagaste
Se já pagaste, não te martirizes. Estes esquemas são feitos para enganar gente atenta e cheia de amor pela família. Age assim, e depressa.
- Liga já ao teu banco, pelo número oficial do verso do cartão ou dentro da app. Explica o que aconteceu, com datas e valores. Quanto mais cedo, mais hipóteses há de travar a transferência.
- Faz queixa às autoridades. PSP ou GNR, presencialmente ou pela Queixa Eletrónica em https://queixaselectronicas.mai.gov.pt. Leva ou anexa os prints.
- Avisa a família e os amigos. Se caíste, o número deles pode ser o próximo a receber a mesma mensagem.
- Guarda toda a comunicação com o banco, incluindo números de reclamação e nomes de quem te atendeu.
Como te proteger
Para a próxima, e para proteger a família e quem te é próximo:
- Combina em família uma pergunta ou uma palavra só vossa. Se um dia alguém pedir dinheiro por mensagem, essa palavra confirma na hora se é mesmo quem diz.
- Confirma sempre pela voz antes de pagar. Uma chamada de dez segundos desmonta a burla inteira. A conversa escrita, não.
- Desconfia de qualquer pedido de dinheiro urgente que chegue de um número novo, mesmo que use o nome e a foto certos. Essas coisas tiram-se das redes sociais.
- Nenhum banco impede o acesso à app por causa de um telemóvel novo. Sempre que ouvires essa desculpa, é sinal de burla.
- Fala disto com os pais e os avós. São os alvos preferidos, e quem conhece o esquema não paga, e não cai.
Fontes: Banco de Portugal, “Mês europeu de cibersegurança. Ouviu falar da burla «Olá mãe, olá pai»?” (https://www.bportugal.pt/page/mes-europeu-de-ciberseguranca-ouviu-falar-da-burla-ola-mae-ola-pai), que alerta para o esquema e recomenda contactar o familiar pelo número habitual antes de pagar. CNN Portugal, “«Olá pai, olá mãe»: a burla que num ano roubou mais de quatro milhões de euros aos portugueses tem um novo esquema” (https://cnnportugal.iol.pt/burla/ola-pai/ola-pai-ola-mae-a-burla-que-num-ano-roubou-mais-de-quatro-milhoes-euros-aos-portugueses-tem-um-novo-esquema/20240122/65a7eea6d34e65afa2f9c369), que aponta cerca de 2845 inquéritos num ano e um prejuízo superior a quatro milhões de euros. Polígrafo, fact-check “«Olá mãe, marca o meu novo número». Há um novo esquema de burla à solta no WhatsApp?” (https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/ola-mae-marca-o-meu-novo-numero-ha-um-novo-esquema-de-burla-a-solta-no-whatsapp), que descreve a desculpa de não conseguir aceder à app do banco e refere o alerta da PSP desde outubro de 2022. Santander, “«Olá Pai!» Conheça as burlas no WhatsApp e como se proteger” (https://www.santander.pt/salto/burlas-whatsapp). Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna (https://queixaselectronicas.mai.gov.pt).
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