Já foste burlado e agora prometem recuperar o teu dinheiro por uma "taxa"? É a segunda burla

Perigo altoA circular agoraDepois de uma burla

Verificado por Equipa É Burla?Atualizado a 21 de julho de 2026

Ninguém sério garante recuperar dinheiro perdido nem cobra uma taxa adiantada para o fazer. Quem te contacta a prometer isso é a segunda burla.

O que ele diz vs. o que ele quer

  • Ele diz“Já localizámos o seu dinheiro, só falta pagar a taxa de ativação para o libertar.”

    Quer mesmoFazer-te acreditar que o dinheiro já está encontrado e à espera, para tu pagares depressa. Não localizaram nada. A 'taxa' é o golpe.

  • Ele diz“Somos uma empresa de recuperação de fundos e trabalhamos com as autoridades. Temos 100% de sucesso.”

    Quer mesmoVestir a farda de entidade oficial e garantir um resultado que ninguém sério garante, para baixares a guarda e confiares.

  • Ele diz“Antes de transferirmos o valor, tem de pagar os impostos (ou os honorários, ou a 'potência de computação').”

    Quer mesmoArranjar um novo pretexto para te sacar mais dinheiro adiantado. Vão inventando taxas enquanto tu continuares a pagar.

  • Ele diz“Precisamos que confirme os seus dados bancários e o código que lhe vamos enviar por SMS.”

    Quer mesmoApanhar os teus dados e o código de segurança para entrar nas tuas contas e roubar-te diretamente, além da 'taxa'.

Perder dinheiro numa burla já é duro. Mas há um segundo golpe, ainda mais cruel, feito à medida de quem acabou de cair no primeiro. Semanas ou meses depois, o telefone toca. Do outro lado, alguém que se diz advogado, investigador, perito em cibersegurança ou funcionário de uma “empresa de recuperação de fundos”. Sabe o teu nome, sabe que foste burlado e traz uma promessa que soa a milagre: vai recuperar o dinheiro que perdeste. Só precisa que pagues uma pequena taxa primeiro.

Se estás a ler isto depois de já teres perdido dinheiro, quero que fique claro: a culpa não é tua. Quem já foi burlado fica mais vulnerável, não por ser distraído, mas porque a esperança de recuperar o que perdeu é enorme, e os burlões sabem disso melhor do que ninguém. Compram e vendem listas de vítimas de propósito para atacar exatamente nesse ponto fraco. Vieste confirmar antes de pagar? Fizeste o mais importante.

O sinal que entrega tudo

Há um pormenor que desmonta esta burla logo à partida: foram eles a contactar-te primeiro, e pedem-te dinheiro adiantado com a promessa de recuperar o que perdeste. Um investigador ou advogado a sério não te liga do nada a garantir a devolução. Avalia o caso primeiro, explica que recuperar dinheiro nunca é garantido e não te cobra uma taxa antes de mostrar resultados. Quem te aparece do nada, garante a devolução e exige um pagamento para “começar” está a descrever, ponto por ponto, o esquema de recuperação.

Como funciona

O objetivo não é recuperar nada. É sacar-te uma segunda vez, aproveitando a esperança de reaver o dinheiro da primeira.

  1. A lista de vítimas. Os burlões guardam ou compram listas de pessoas já burladas, as chamadas “listas de otários”. Sabem o teu nome, o que perdeste e onde. Muitas vezes são o mesmo grupo que te enganou da primeira vez, agora com outra cara.
  2. O contacto que parece oficial. Ligam, mandam email ou escrevem nas redes sociais fazendo-se passar por advogado, investigador, autoridade, perito em cibersegurança ou “empresa de recuperação de fundos”. Alguns criam sites de aspeto profissional e até anúncios pagos para parecerem reais.
  3. A promessa boa demais. Garantem que já localizaram o teu dinheiro, ou prometem “100% de sucesso” a recuperá-lo. Dão-te esperança e um prazo, para agires depressa.
  4. A taxa adiantada. Aqui está o golpe. Pedem um pagamento antes de fazer seja o que for: taxa de ativação, impostos, honorários, comissão, “potência de computação”. Assim que pagas, inventam a taxa seguinte. E, se puderem, ainda te pedem dados bancários e códigos de SMS para te roubarem diretamente.
  5. O desaparecimento. Quando paras de pagar, desaparecem. Nunca houve dinheiro localizado nem recuperação nenhuma.

Porque é que se percebe que é falso

Grava estes pontos, porque nenhuma entidade a sério faz o que os burlões fazem:

  • Ninguém sério garante recuperar dinheiro. Recuperar dinheiro de uma burla é possível às vezes, mas nunca é garantido. Quem promete devolução certa está a mentir.
  • Ninguém sério cobra uma taxa adiantada para começar. Um advogado a sério explica os custos e o caso primeiro, e não te exige um pagamento imediato para “libertar” um dinheiro que diz já ter encontrado.
  • As autoridades não te ligam a pedir taxas. A PSP, a GNR, o Banco de Portugal ou um tribunal nunca te contactam do nada a pedir dinheiro para te devolver o teu.
  • Foram eles a procurar-te. Um serviço legítimo é procurado por ti. Um contacto que aparece do nada a prometer recuperar o que perdeste é o padrão exato da burla.

Isto liga-se muitas vezes a uma primeira burla de investimento em cripto com figuras públicas. O Banco de Portugal alertou, a 16 de junho de 2025, para esquemas em que os burlões identificam a vítima pelo nome e falam de carteiras digitais com saldo à espera de serem “ativadas” com um pagamento. É a mesma mecânica.

Sinais de alarme

Se reconheces isto, acende-se a luz vermelha:

  • Contactam-te primeiro, por telefone, email ou redes sociais, sobre uma burla de que já foste vítima.
  • Dizem-se advogado, investigador, autoridade, perito em cibersegurança ou “empresa de recuperação de fundos”.
  • Garantem a devolução do dinheiro ou prometem “100% de sucesso”.
  • Dizem que já localizaram o teu dinheiro e que só falta um passo.
  • Exigem um pagamento antecipado: taxa de ativação, impostos, honorários, comissão, “potência de computação”.
  • Pedem-te dados bancários, códigos de SMS ou a tua frase de recuperação (seed phrase) da carteira de cripto.

Guarda esta regra: quem te contacta a garantir que recupera o teu dinheiro por uma taxa adiantada é a segunda burla, sempre.

Como recuperar dinheiro pelos canais certos

Recuperar dinheiro de uma burla nunca é garantido, mas há caminhos reais, e nenhum deles te aparece do nada a pedir taxas.

  1. Contacta já o teu banco, pelo número oficial no verso do cartão ou dentro da app. Quanto mais cedo, mais hipóteses de travar ou seguir o dinheiro.
  2. Faz queixa à PSP ou à GNR, presencialmente ou pela Queixa Eletrónica em https://queixaselectronicas.mai.gov.pt. É a queixa que abre caminho a qualquer investigação.
  3. Se quiseres apoio jurídico, procura tu um advogado de confiança. Escolhes tu, avalias o caso com ele, e não aceitas o que te aparece do nada a prometer milagres.
  4. Guarda tudo o que tenhas da primeira burla: comprovativos, mensagens, contactos, transferências. Vai fazer falta às autoridades e ao banco.

O que fazer se já pagaste a “taxa”

Se já pagaste, não te martirizes. Estes esquemas são desenhados para enganar gente atenta e a viver um momento frágil. Age assim, e depressa.

  1. Não pagues mais nada. Assim que percebes que é burla, para. Não há taxa que “liberte” dinheiro nenhum, porque nunca houve dinheiro localizado.
  2. Liga já ao teu banco e explica o que aconteceu, com datas e valores. Se pagaste por cartão ou transferência recente, pode haver hipótese de travar.
  3. Se partilhaste dados ou códigos, muda as passwords, ativa a verificação em dois passos e avisa o banco de que as tuas contas podem estar comprometidas.
  4. Faz queixa às autoridades, PSP ou GNR, pela Queixa Eletrónica em https://queixaselectronicas.mai.gov.pt, e junta os prints de todos os contactos.
  5. Não aceites o próximo “salvador”. Depois desta, é bem possível que apareça mais alguém a prometer recuperar o que perdeste. É mais do mesmo.

Como te proteger

Para ti e para proteger a família e quem te é próximo:

  • Ninguém sério garante recuperar dinheiro nem cobra uma taxa adiantada. Esta única frase chega para não caíres.
  • Desconfia de todo o contacto que aparece do nada a falar de uma burla que sofreste. Como é que essa pessoa sabe? Porque anda em listas de vítimas.
  • As autoridades e o banco não te ligam a pedir taxas para te devolverem o teu dinheiro.
  • Nunca partilhes a tua frase de recuperação da carteira de cripto, nem códigos de SMS, nem dados bancários com quem promete recuperação.
  • Fala disto com a família e com os amigos, sobretudo com quem já passou por uma burla. Quem conhece a segunda burla não paga a “taxa”.

Fontes: ScamAdviser, “Scammed Once, Fooled Twice? The Shocking Rise of Crypto Recovery Scams” (https://www.scamadviser.com/articles/crypto-recovery-scams-how-to-avoid-getting-scammed-twice) e “Money Recovery Scams” (https://www.scamadviser.com/articles/money-recovery-scams). DECO PROteste, “Burlas com criptoativos: Banco de Portugal denuncia esquema com chamadas fraudulentas” (https://www.deco.proteste.pt/tecnologia/ciberseguranca/noticias/burlas-criptoativos-banco-portugal-denuncia-esquema-chamadas-fraudulentas), que refere o alerta do Banco de Portugal de 16 de junho de 2025 sobre burlas com criptomoedas em que a vítima é identificada pelo nome. Banco de Portugal, “Não caia na armadilha. Saiba como se proteger de falsos investimentos em criptoativos” (https://www.bportugal.pt/page/nao-caia-na-armadilha-saiba-como-se-proteger-de-falsos-investimentos-em-criptoativos). Recoveris, “Enganado duas vezes? Como reconhecer falsas empresas de recuperação de criptoativos” (https://recoveris.io/recuperar-criptomoedas-falsas-empresas/). ESET WeLiveSecurity, “Vítimas de roubo de criptomoedas caem na falsa promessa de recuperá-las” (https://www.welivesecurity.com/pt/golpes-fraudes/vitimas-de-roubo-de-criptomoedas-caem-na-falsa-promessa-de-recupera-las/). Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna (https://queixaselectronicas.mai.gov.pt).

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